segunda-feira, 10 de setembro de 2012
"Bispo S/A" narra cultos da Universal contra possessões demoníacas ao ritmo de forró
FRANK FARIA
colaboração para a Livraria da Folha
Divulgação
Obra revela os bastidores do exercício de poder da IURD
No livro "Bispo S/A", o autor Odêmio Antonio Ferrari aborda o fundamentalismo e o exercício do poder na IURD (Igreja Universal do Reino de Deus). O livro apresenta como o fundador Edir Macedo teve êxito com sua igreja e com as redes de comunicação que conseguiu montar.
Filho de pai alagoano e mãe mineira, veio de uma família humilde composta por 17 irmãos -dentre eles, 10 morreram. Ex-funcionário da Loterj (loteria do Rio), Macedo hoje é lembrado nos cultos da Universal como "modelo de identificação", que "alcançou a meta de ser rico".
"Na sua estratégia organizativa, a IURD guia-se por uma razão e lógica instrumental. Analisa o mercado, seu tipo de clientela e carências em vista de melhor atender e colher resultados imediatos e significados. Faz adequação permanente na linguagem e nos métodos de culto. Continuamente está ajustando elementos religiosos e fazendo o processo de acomodação ao mercado neoliberal, em conformidade com a mentalidade confusa atual. Adquirindo e colocando a seu serviço os meios de comunicação (televisão, rádios, jornal, dentre outros), treina os pastores/bispos para o proselitismo, usando linguagem simples e direta", escreve Ferrari.
A obra investiga os fenômenos religiosos pós-modernidade, suas novas instituições (onde aparece a ideia da teologia da prosperidade), o começo da IURD, suas origens, seu trinômio "exorcismo, cura, prosperidade", e suas relações com o poder.
No final, o autor relata um dia de culto e como as pessoas são influenciadas. Formado em filosofia, teologia e com mestrado em ciências da religião pela PUC-SP, Ferrari é ligado à Igreja Católica: vigário na paróquia Santa Cruz de Itaberaba (região da Brasilândia, na capital paulista).
O texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro 'Escrevendo pela Nova Ortografia'.
Leia trechos do livro.
O discurso centraliza-se praticamente só no mal, fruto do demônio e suas múltiplas fisionomias, expressado, numa variedade de compreensões que permeiam o senso comum popular, sendo a maioria proveniente da linguagem dos cultos afro, crenças indígenas e magia negra, como trabalho espiritual feito com fotos no cemitério... roubo de roupas íntimas para esfriar o relacionamento do casal... olho grande... espírito de inveja e miséria... fumaça do charuto do preto-velho... trabalho da vizinha feito para prejudicar a sua casa... trabalho feito em comidas para causar doenças e câncer de todo tipo...
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Alguns portadores de espíritos mais rebeldes tiveram que ser arrastados até pelos cabelos. Expostos ao público, ficaram se contorcendo e grunhindo, acompanhados por alguns obreiros (as), enquanto o pastor mostrava os resultados concretos das possessões presentes no ambiente e a força da igreja como eficaz combatente dos males. Iniciou-se um canto com ritmo de forró, incentivando à participação com palmas e gestos, descontraída, entra o recolhimento do envelope do dízimo, o qual havia sido levado para casa no encontro anterior. Se alguém estava sem, imediatamente recebia um outro das mãos dos obreiros. Em inúmeras cestas, os envelopes são colocados no palco aos pés de uma grande cruz iluminada.
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'Bispo S/A: A Igreja Universal do Reino de Deus e o Exercício do Poder'
Autor: Odêmio Antonio Ferrari
Editora: Ave-Maria
Páginas: 264
Quanto: R$ 23,92 (preço promocional, por tempo limitado)
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha
Saiba por que a Igreja Universal do Reino de Deus comprou a TV Record; leia trecho
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da Folha Online
Em 9 de novembro de 1989, o bispo Edir Macedo adquiriu a Rede Record de Rádio e Televisão. Além do televangelismo, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) investiu em produção escrita para aproximar e solidificar a importância do templo como espaço de visibilidade e irradiação do evangelismo.
Essas diferentes formas de atuação midiática da IURD e os exercícios de poder por meio deles são relatados no livro "Bispo S/A: A Igreja Universal do Reino de Deus e o Exercício do Poder". O autor, filósofo e teólogo Odêmio Antonio Ferrari aprofunda-se na investigação bibliográfica sobre o neopentecostalismo brasileiro: do pluralismo religioso ao manejo da fé e do dinheiro por meio do exercício de poder do bispo Edir Macedo.
Atualmente, a Igreja compra 6h diárias de espaço nas madrugadas da TV Record, em média, para veicular uma programação religiosa. Eles pagam R$ 200.000 por cada hora, segundo estimativas não oficiais. No trecho abaixo, extraído deste volume, Ferrari explica como se deu a aquisição da Rede Record de Rádio e Televisão e seu desenvolvimento ao longo dos últimos anos.
Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".
p(star). *
O envolvimento da IURD nas esferas empresarial, política, da mídia e do marketing
Empresarial
(...)
Na 'década perdida' de 1980, marcada pela crise de mudanças na organização social brasileira (redemocratização, eleições diretas, constituinte, planos econômicos, manifestações populares), a IURD cresceu com força vertiginosa. Comprando rádios, televisões, introduzindo líderes na política partidária, abrindo templos no Brasil e no exterior. Culminou com a audaciosa compra da 'decadente e virtualmente falida' Rede Record de Rádio e Televisão em 1989. Depois, em 1995, comprou a sede e equipamentos da TV Jovem Pan por US$ 30 milhões. Também houve a compra da Rede Mulher que operava em UHF e via cabo, ao mesmo tempo em que comprou empresas e imóveis em nome da Igreja ou de 'testas-de-ferro'. Toda essa movimentação financeira sinalizou o potencial arrecadador da Igreja Universal e o exercício de uma administração racionalizada.
Divulgação
Obra revela os bastidores do exercício de poder da IURD
Rapidamente, a IURD se consolidou em vários campos avançando do religioso à estruturação econômico-empresarial e se abriu para a necessidade de ter e usar os recursos lucrativos midiáticos. A representação no âmbito político passou a ser compreendida como fator estratégico. Tendo liderança portadora de visão de conjunto, buscou estabelecer tentáculos em diversas esferas que deram sustentação e poder, a partir da instituição religiosa estabelecida. Nisso, o uso dos meios de comunicação social foram percebidos como primordiais.
Com uma refinada assessoria jurídica e financeira, o bispo Macedo soube tirar proveito das incongruências da legislação que beneficia igrejas e entidades filantrópicas. É claro que também outras Igrejas aproveitaram-se de semelhante recurso legal. Talvez não com tanta astúcia como a Igreja Universal fez. Entre as acusações em âmbito civil, pesou a sonegação de impostos, evasão de divisas e usurpação da legislação brasileira em relação às instituições religiosas, protegendo todo seu lado empresarial na fachada eclesial. Mas, contratando advogados e especialistas financeiros, 'pagos a peso de ouro', tem conseguido embaralhar e não ser penalizado diante de nossa confusa legislação.
A partir daí, começou a despertar temor na concorrida faixa religiosa e empresarial, o que não se restringiu só ao Brasil. Em 1997, com vinte anos de existência, a IURD já tinha consolidado bases religiosas e empresariais e também tentativas políticas em países da Europa53 e no mundo, em torno de cinqüenta países. Em 2002, chegou a oitenta países.
A alegação dos altos custos da evangelização serviu para legitimar a mercantilização dos serviços religiosos, conforme inspiração da Teologia da Prosperidade. Até hoje, não se sabe o que é patrimônio da Igreja e suas empresas e o que é da família do bispo Macedo, com seu substancioso padrão de vida. Tudo é justificado pelas necessidades operacionais da instituição e o bom sentido dado à ligação entre dinheiro e religião. Macedo diz sem constrangimento: "Assim como o sangue está para o corpo humano, também o dinheiro está para a obra de Deus". E apela até para Jesus: "O dinheiro pode ser usado para o bem e para o mal. Eu, por exemplo, uso o dinheiro para o bem, coloco-o a serviço de Deus. (...) Jesus nunca foi pobre. Sendo o rei dos reis, Jesus era rico...".
O centralismo gerencial cerceia qualquer autonomia das Igrejas locais e de seus pastores/bispos. A clientela dos templos não sabe do destino dos dízimos e das ofertas. Não existe representatividade dos leigos nem prestação de contas, tudo permanece fechado, da mesma maneira que ocorre em uma empresa privada. Daí o questionamento: "(...) até quando as massas permanecerão apenas participando dos rituais na IURD, sem exigir a sua parte na administração, controle ou ao menos na supervisão da administração dos bens e recursos acumulados pela Igreja (...)?".
Na década de 90, as denúncias pulularam contra a Igreja Universal. Sua forte assessoria jurídica e capacidade de negociações nos meandros dos poderes constituídos da sociedade deram fôlego e resistência na consolidação da instituição e vencimento dos adversários. Nem mesmo as denúncias de ex-líderes, as investigações da Polícia Federal, a prisão do bispo Macedo, os programas e as reportagens nos meios de comunicações concorrentes derrubaram a solidez da IURD, uma autêntica holding empresarial com perfil religioso.
Macedo rechaçou jornalistas de outros veículos de comunicação e pesquisadores, proibiu seus liderados de concederem entrevistas, encaminhou processos na justiça e convocou o seu rebanho para uma 'guerra santa'. As denúncias foram transformadas em acusações persecutórias. "Estamos sendo castigados e perseguidos pela imprensa como cão danado. Eles querem arrancar nossa cabeça. Isto só aumenta nossa fé".
Até o fato de o bispo Macedo ter ficado doze dias na prisão em maio de 1992, acusado de charlatanismo, curandeirismo e estelionato, foi usado para sensibilizar seu público. Macedo demonstrou sofrimento por uma causa nobre, sendo humilhado, constrangido e levado num camburão da polícia. O público iurdiano, líderes e políticos evangélicos de outras denominações se solidarizaram, vendo no fato uma perseguição religiosa, embora não fossem simpáticos ao estilo cultual e comercial da concorrente Igreja Universal. Essa solidariedade serviu para amenizar as críticas e proclamadas diferenças que Macedo sempre arrogou sobre as demais denominações religiosas, também do campo evangélico.
Mídia e Marketing
Uma competente utilização dos meios de comunicação de massa contribuiu para a instalação e consolidação da IURD. "A mídia faz com que as barreiras geográficas, sociais e ideológicas sejam rompidas e os 'produtos' iurdianos sejam colocados para um público necessitado, que lhe paga o preço pedido, porque se trata de alcançar a felicidade, o bem-estar físico e espiritual...".
Os programas religiosos, pelo fato de utilizarem a mídia eletrônica, não garantem conversões e novos adeptos. Em geral, seus ouvintes e telespectadores já pertencem a uma denominação eclesiástica. Estudos mostram que o efeito da mídia em programas religiosos é mediador. Gira em torno do despertar da curiosidade e mexe com as situações de crises conscientes e inconscientes vividas pelos espectadores. A importância da programação religiosa está em atrair para a possibilidade de solução no 'contato pessoal' com a mensagem e com a prática ritual, nas quais a dinâmica de métodos da Igreja pode fazer o efeito de mudança de crenças, valores e atitudes. A partir daí, para esses, a mídia passa a ter o efeito de reforço nas decisões e nos comportamentos já ocorridos no contato institucional.
Por isso, a Igreja Universal diferencia-se do televangelismo norte-americano e não investe apenas na mídia eletrônica, mas diversifica ao usar uma variada produção escrita. As diferentes formas de comunicação servem para aproximar e para solidificar a importância do templo como espaço de visibilidade e irradiação do evangelismo via escala de atos cultuais.
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